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quinta-feira, 17 de abril de 2014

O Regente de Coro Escolar: Competências e Habilidades


O Regente de Coro Escolar: Competências e Habilidades

 Eric Gomes do Carmo

é acadêmico do curso de licenciatura em música

da Universidade Estadual de Londrina

1.    IDENTIFICAÇÃO DO PROBLEMA

Dois períodos históricos são marcantes para o canto coral no Brasil do Período Colonial ao Canto Orfeônico no final da República Velha (1930) até pouco depois do Estado Novo (1945-50). No período Colonial havia a figura do mestre-de-capela que era um membro leigo do corpo administrativo da Igreja. Era o regente dos grupos instrumentais e vocais, nos quais situava os corais infantis, que nesse período não tinha a participação feminina.

Segundo Utsunomiya (201, p.15) apud DUPRAT (1985) e NETO (2008), era necessário ter certas competências que habilitassem o mestre-de-capela a assumir e desenvolver as funções. Eram elas:

·         Competência intelectual e técnica (conhecer a linguagem musical, liderar e ensinar os grupos instrumentais e vocais para o serviço religioso, compor, dispor de repertório adquirido ou copiado por ele mesmo e instrumentista – organista, harpista etc.);

·         Administrativa/gerencial (na participação das Irmandades e questões relativas ao convívio da e na comunidade)

·         Competência interpessoal (participar do jogo de relações a fim de conseguir e manter seu sustento financeiro), além de conhecimentos pedagógicos para alfabetizar e ensinar a contar, sendo também uma forma de compor o seu sustento.

Do final da República Velha (1930-1950), o Canto Orfeônico, modalidade de canto a capela surgida com contornos ideológicos e políticos na França e na Espanha, importada para o Brasil, onde ganhou o seu auge a serviço do Estado Novo, foi a maneira mais eficiente do canto coral infantil e a educação musical sob a mentoria de Villa-Lobos entre outros, se propagar principalmente no Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Atualmente os coros infantis fazem parte de programas desenvolvidos em clubes, escolas, centros culturais, teatros, igrejas, universidades e escolas de música.

Os cursos superiores em música no Brasil se dividem em licenciatura e bacharelado. São termos designados para caracterizar modalidades de curso de graduação onde o profissional de licenciatura é aquele que tem o objetivo de ensinar, seguir a carreira de educador.  Na licenciatura além de ensinar ao acadêmico as disciplinas referentes ao curso escolhido, a principal característica dos cursos de licenciatura é ensinar a ensinar, para tornar o discente um educador.

No bacharelado a formação oferecida ao aluno bacharel é de conhecimento técnico e pesquisa específica numa área voltada ao mercado de trabalho, ou seja, um músico que irá atuar numa determinada área, por exemplo arranjador, compositor, violonista, etc.

Segundo Mateiro (2009, p.65), em seu estudo comparativo e analítico, sobre os projetos pedagógicos de cursos de música de 15 universidades brasileiras, em termos de projeto pedagógico e estrutura curricular, a formação é basicamente a mesma para atender as necessidades da educação musical infantil e de regentes de corais adultos por exemplo. Basicamente não há diferenciação na formação de quem vai trabalhar com um grupo instrumental adulto e um coro infantil.

É complexo compor um único perfil de formação para um educador musical que irá trabalhar em diferentes contextos. É possível perceber que, assim como nas mais diversas áreas profissionais, para o educador musical há competências que, de uma maneira geral, são imprescindíveis a todo profissional da área de Educação Musical, no entanto há competências necessárias e fundamentais para o desenvolvimento de atividades docentes significativas e contextualizadas nas situações de ensino musical existentes na contemporaneidade, na qual destaca-se a regência de coro escolar.

Na verdade o trabalho do educador musical na escola é mais abrangente do que a regência de um coro infantil escolar, porém acredita-se que na formação e desenvolvimento de um coral escolar estão inseridas as principais necessidades em termos de competência, para um educador exercer sua função no âmbito escolar.

Tendo em vista a progressiva inserção da Educação Musical na rede pública de ensino e a oportunidade de desenvolver o canto coletivo como instrumento de inclusão e motivação do aluno, procurou-se identificar as competências necessárias para o desenvolvimento desse trabalho de Educação Musical, formulando-se a seguinte pergunta: Quais são as competências necessárias para o desenvolvimento do trabalho de regência coral no âmbito escolar?

2.    METODOLOGIA

Esta revisão foi construída através do levantamento de dados encontrados na literatura já existente, através de pesquisa bibliográfica onde foram consultados artigos originais e de revisão sobre o tema, revistas e Internet.

3.    REVISÃO DE LITERATURA

A Resolução do Conselho Nacional de Educação de 18 de fevereiro de 2002 (BRASIL, 2002), instituiu as diretrizes curriculares nacionais para a formação de professores da Educação Básica, em nível superior dos cursos de licenciatura, de graduação plena. Essas diretrizes constituem-se de um conjunto de princípios, fundamentos e procedimentos a serem observados na organização institucional e curricular de cada estabelecimento de ensino e aplicam-se a todas as etapas e modalidades da educação básica.

Segundo a referida resolução, a formação de professores que atuarão nas diferentes etapas e modalidades da educação básica, observará princípios norteadores desse preparo para o exercício profissional específico, que considerem: a competência como concepção nuclear na orientação do curso, a coerência entre a formação oferecida e a prática esperada do futuro professor e a pesquisa, com foco no processo de ensino e de aprendizagem, uma vez que ensinar requer tanto dispor de conhecimentos e mobilizá-los para a ação, como compreender o processo de construção do conhecimento.

O Conselho Nacional de Educação usa o termo “simetria invertida” para especificar que o preparo do professor deve ocorrer em lugar similar àquele em que vai atuar, a fim de fornecer demanda consistente entre o que faz como aluno durante a formação e o que se espera de sua prática como docente.

Desta maneira essa resolução preconiza a aprendizagem como processo de construção de conhecimentos, habilidades e valores em interação com a realidade e com os demais indivíduos, no qual são colocados em uso capacidades pessoais; os conteúdos, como meio e suporte para a constituição das competências; a avaliação como parte integrante do processo de formação, que possibilita o diagnóstico de lacunas e a aferição dos resultados alcançados, consideradas as competências a serem constituídas e a identificação das mudanças de percurso eventualmente necessárias.

3.1 SOBRE COMPETÊNCIA NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL

Segundo Fleury & Fleury (2001), nos últimos anos, o tema competência entrou para a pauta das discussões acadêmicas e empresariais, associado a diferentes instâncias de compreensão: no nível da pessoa (a competência do indivíduo), das organizações (as core competences) e dos países (sistemas educacionais e formação de competências). 

O dicionário Houaiss (2008), descreve competência num sentido geral como a capacidade, aptidão e qualificação decorrente de um conhecimento que alguém tem sobre um assunto. É o domínio dos conteúdos, conhecimentos e habilidades necessárias para ao desempenho de atividades que se realiza ou se quer realizar.

O dicionário Webster (1981, p. 63) define competência, na língua inglesa como: “qualidade ou estado de ser funcionalmente adequado ou ter suficiente conhecimento, julgamento, habilidades ou força para uma determinada tarefa”.

McClelland (1990) apud Fleury & Fleury (2001) publicou o paper Testing for Competence rather than Intelligence onde diferenciava assim competência de aptidões: talento natural da pessoa, o qual pode vir a ser aprimorado; de habilidades: demonstração de um talento particular na prática; e conhecimentos: o que as pessoas precisam saber para desempenhar uma tarefa. Porém nas definições mais recentes como já citado, não se diferencia ou separa no conceito a necessidade do desenvolvimento de aptidão, habilidade e conhecimento, mas a junção dessas qualidades para a habilitação do sujeito, a fim de desenvolver uma função ou tarefa.

Segundo Zarifian (1999) apud Fleury & Fleury (2001), a “competência é a inteligência prática para situações que se apoiam sobre os conhecimentos adquiridos e os transformam com tanto mais força, quanto mais aumenta a complexidade das situações”.

Sendo assim um profissional competente é aquele que está preparado para resolver situações esperadas e inesperadas, compreendendo a si mesmo e ao outro na situação, mobilizando recursos para atingir os objetivos propostos em sua organização.

No relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI, coordenada por Jacques Delors, está publicado em forma de livro no Brasil, com o título Educação, o livro: Um Tesouro a Descobrir (UNESCO, MEC, Cortez Editora, São Paulo, 1999). Neste livro, a discussão dos "quatro pilares" ocupa todo o quarto capítulo, pp. 89-102, que são: Aprender a conhecer; Aprender a fazer; Aprender a viver com os outros; Aprender a ser. Esses pilares apresentados apoiam a ênfase para a formação do educador, baseada numa gama de conhecimentos e experiências a serem vividas no contexto futuro de atuação profissional, que possibilitem compreender o seu campo de atuação e ensinar de forma competente.

Em suma, um profissional precisa de aptidão, habilidades e conhecimentos para agir de forma competente em sua atuação profissional, aprendendo e reaprendendo continuamente.

3.2 A FORMAÇÃO DO REGENTE CORAL

No Brasil a formação de um regente coral pode acontecer de três maneiras, cada uma delas tendo ligação ou não com a outra. Primeiro: por um aprendizado prático em ambientes musicais, a exemplo de igrejas que investem nessa formação para a manutenção da música coral inserida nas próprias instituições. Segundo: através do bacharelado em regência. Terceiro: através da licenciatura em música para atuar com grupos vocais de uma maneira geral.

Há uma questão antiga sobre a formação acadêmica de um bacharel e um licenciado em música, que reside basicamente sobre o status que de alguma maneira diferencia na prática a atuação dos dois. Segundo Mateiro (2003, p.1), sobre a formação universitária do professor de música, há uma dicotomia entre os bacharelados e as licenciaturas que faz parte do censo comum, onde “alunos mais talentosos são aqueles cursam o bacharelado enquanto que na licenciatura estão aqueles com menor interesse acadêmico”. Existe uma ideia subentendida de que o professor de música optou pela carreira pedagógica por não ter sido um instrumentista de grande talento, não sendo devidamente competente na área de música por não reger uma orquestra, se apresentar em recitais, etc. Porém o mesmo autor destaca que “não podemos esquecer que para o músico o objetivo de sua tarefa é a música enquanto para o professor é o ensino da música”.

A principal questão é que um professor deve saber ensinar o que se propõe a ensinar, e para ele ensinar é necessário saber o que quer ensinar. Vem à tona então a discussão sobre os conhecimentos fundamentais à formação do professor de música, e especificamente neste estudo para a atuação como regente de um coro escolar. Obviamente o domínio dos conhecimentos teóricos e práticos por um professor de música, inserido numa escola pública ou privada, não se limita a regência, porém é uma atividade que carece de conhecimentos amplos e específicos para a atuação pedagógica, necessários em sua formação.

Segundo Fiqueiredo (2006, p.885), a formação do educador musical em cursos de licenciatura em música tem incluído diversas subáreas e a regência é uma dessas subáreas que está incluída no currículo de diversos cursos superiores. Ele afirma que “um dos objetivos da inclusão de tal subárea na formação do educador musical está diretamente relacionado ao fato de muitas propostas para a escola serem dinamizadas através de atividades musicais em grupo, o que exige uma condução de trabalho que traz, em si, ações de regência”.

Considerando que a voz é um instrumento de fácil utilização para várias experiências no âmbito musical, é fundamental que o educador musical se desenvolva nesta área. Embora a área de regência seja bastante complexa (FIQUEIREDO, 2006; FUCCI AMATO, 2008; ASSUMPÇÃO, 2010), que envolve desde conhecimentos teóricos, práticos corporais, comportamentais, culturais e de liderança, o que se objetiva “é o desenvolvimento de habilidades básicas que poderão ser ampliadas a partir do interesse pessoal dos indivíduos”. (FIQUEIREDO, 2006, p. 885).

No estudo (FUCCI AMATO, 2008, p.15) sobre as habilidades e competências na prática da regência coral, realizado com estudantes de graduação em música que frequentaram as disciplinas de Regência Coral e Prática Coral na Faculdade de Música Carlos Gomes, a autora concluiu que as habilidades organizacional-administrativas são valorizadas pelos coralistas e que esses conceitos deveriam compor a formação dos regentes.

O autor afirma que os saberes-fazeres se conjugam à boa formação musical em disciplinas teóricas como: teoria musical, solfejo, harmonia, contraponto, etc.; e disciplinas práticas: canto, piano, exercícios gestuais e outras matérias que são necessárias para o ofício de regência a fim de se obterem resultados adequados, tanto do ponto de vista educacional ou sociocultural quanto sob o ângulo da qualidade performática.

Desta forma Fucci Amato (2008, p.19), propõe as seguintes habilidades na formação da competência do regente coral: Saber se comunicar, saber agir, saber liderar, saber motivar, ter visão estratégica, saber assumir responsabilidade, saber aprender com os coralistas, saber aperfeiçoar-se, saber comprometer-se, saber estimular a criatividade do coral, saber mobilizar recursos materiais.

Os autores Amato Neto & Fucci Amato (2006, p.1), em seu estudo sobre a organização do trabalho e gestão de competências, afirmam que, na sua mais abrangente concepção, a formação e a atuação de regentes corais devem abarcar os princípios musicais, organizacionais e administrativos. Destaca que o estudo de técnicas de organização do trabalho e gestão de competências/recursos humanos de um grupo vocal, permite a partir de sua aplicação, o desenvolvimento de relações interpessoais mais agradáveis dentro do grupo e, consequentemente, de uma maior eficácia nas atividades do conjunto.

Quadro 1 - Habilidades organizacional-administrativas do regente coral.

Saber comunicar
Compreender, processar, transmitir informações e conhecimentos, assegurando o entendimento da mensagem pelos outros.
Saber motivar
Saber o que e por que faz; saber julgar, escolher, decidir.
Saber liderar
Estabelecer metas e levar os coralistas ao seu cumprimento.
Saber agir
Saber atender aos desejos dos coralistas e atender continuamente às expectativas.
Saber motivar
Conhecer a entender as atividades do coral e seu ambiente, identificando oportunidades e alternativas.
Ter visão estratégica
Ser responsável, assumindo os riscos e as consequências de suas ações e ser, por isso, reconhecido. 
Ter visão estratégica
Valorizar e estar aberto às contribuições dos coralistas.
Saber assumir responsabilidades
Trabalhar o conhecimento e a experiência.
Saber aprender com os coralistas
Saber desenvolver e propiciar o desenvolvimento dos outros.
Saber aperfeiçoar-se
Saber engajar-se e comprometer-se com os objetivos do grupo.
Saber comprometer-se
Promover atividades de criação e improvisação, incentivando a criatividade.
Saber estimular a criatividade do coral
Saber mobilizar recursos financeiros e materiais, criando sinergia entre eles; obter auxílios para patrocínio, divulgação e apoio ao coral.

Fonte: Construindo o Conceito de Competência (adaptado de Fleury & Fleury, 2000, p. 23).

Em seu livro 10 competências para ensinar o Dr. Phillip Perrenoud (PERRENOUD, 2000) destaca dez competências para o ensino que o educador deve desenvolver:

1. Organizar e dirigir situações de aprendizagem;

2. Administrar a progressão das aprendizagens;

3. Conceber e fazer evoluir dispositivos de diferenciação;

4. Envolver os alunos em suas aprendizagens e em seu trabalho;

5. Trabalhar em equipe;

6. Participar da administração escolar;

7. Informar e envolver os pais;

8. Utilizar novas tecnologias;

9. Enfrentar os deveres e os dilemas éticos da profissão;

10. Administrar a própria formação.

Posteriormente o autor inclui a capacidade do educador refletir sobre sua prática educativa.

Apesar dos currículos de licenciatura em música em geral não contemplarem disciplinas de liderança e nem desenvolvimento de criatividade, estar à frente na direção de qualquer grupo exige atitude e postura de líder para administrar, empreender e inovar.

Segundo Amato (2008, p. 15), o canto coral é uma prática musical social realizada em grupo na qual o regente desenvolve não somente o “preparo técnico musical, mas também a gestão e condução de um conjunto de pessoas que buscam motivação, educação musical e convivência em um grupo musical”.

No estudo sobre atuação de regentes corais, Teixeira (2005, p.62), entrevistou regentes que apontaram alguns problemas durante sua formação inicial, pontuando as discrepâncias entre o mundo prático e o mundo acadêmico. “Referiram-se, também, à necessidade de aprender como interagir com os cantores, para além das questões unicamente musicológicas abordadas em aula. Foi apontada, ainda, a deficiência da formação inicial na instrumentalização do aluno para lidar com coros iniciantes”.

Os regentes pontuaram algumas competências para atuar com coros de empresa:

a)      Ter formação musical;

b)      Desenvolver competências musicais tais como saber adaptar o repertório quando necessário, realizar arranjos, ser criativo e incentivar a criatividade dos cantores na estruturação de arranjos;

c)      Ter competência de gestão: “administrar a vida do coro”, aprendendo a fazer um pedido de execução de tarefas aos cantores, conseguindo entrar, de certa forma, na rotina dos funcionários, utilizando-se dos meios disponíveis no seu cotidiano, tais como o pedido de pesquisas pela Internet; trabalhar com metas específicas com o grupo, à semelhança do trabalho a que estão habituados na empresa;

d)     Tocar um instrumento harmônico;

e)      Ser flexível.

Em termos de contexto mais próximo da realidade escolar onde se pode desenvolver uma trabalho de canto coral escolar, estão os coros de projetos sociais. Segundo pesquisa realizada por Utsunomiya (2011, p.98), sobre habilidades e competências para o regente de coro infantil em projetos sociais, pode-se destacar no quadro a seguir atribuições devidas ao regente, assim como as competências requeridas para tal:

Quadro 2 - Competências requeridas ao regente de coro infantil de projeto social

Atribuições do regente de coro infantil
Requer competências no campo
Técnico musical
Pedagógica
Gerencial
Planejamento estratégico do coro: missão e objetivos do coro; o lugar do coro na instituição; o que e como fazer para se atingir as metas estabelecidas para certo período.
Visão estratégica
de Administração e de Marketing
Condução de ensaios: Triagem dos componentes do coro; escolha de repertório; planejamento dos ensaios; execução dos ensaios; técnica vocal; acompanhamento instrumental.
Música, Regência, Instrumento, Técnica Vocal, Voz infantil,
Pedagogia,
Psicologia infantil
Planejamento artístico: Apresentação como espetáculo: escolha do tema e concepção da apresentação: concepção visual: enredo, cenário, figurino, performance, falas, atuação etc.
Cenografia, Dramaturgia, Design
Pedagogia, Arte,
Cultura
Pré-apresentação: Intermediação e negociação dos locais para apresentação; preparo da logística: (autorizações, transporte, alimentação); comunicação do evento (texto, cartaz, release, programa); documentação do evento (fotos, gravações)
Apresentação: Organização da equipe de apoio de logística (pais,transporte, alimentação) e de apresentação (luz, som, gravação, montagem, músicos, preparador vocal). Função de apresentador e de regente.
Pós-apresentação: desmontagem, guardar os materiais, acompanhar crianças na volta, fazer contatos sociais.
Música, Voz infantil,
Regência, Técnica
Vocal, Instrumento,
Iluminação, Sonoplastia, Oratória
Pedagogia,
Psicologia infantil
Técnicas de
negociação,
Logística,
Administração
geral, Administração de
pessoas, Relações
Públicas, Design,
Marketing
Gestão comunicacional do coro: Manter relacionamento com os diversos públicos: crianças, pais, equipe de apoio do projeto, voluntários do projeto, comunidade de colaboradores da ONG, direção da ONG,
empresas e pessoas financiadoras, comunidade ao redor do projeto, poder público, imprensa, sociedade em geral.
Marketing social;
Marketing de
relacionamento,
Relações Públicas
Gestão administrativa do coro: controle de verbas. Fazer cotações, orçamentos, administrar entradas e saídas. Negociar e administrar patrocínios e apoios.
Administração
geral , Finanças,
Contabilidade
Gestão pedagógica do coro: o coro como uma atividade lúdica e pedagógica. Planejamento e execução de atividades pedagógicas e lúdicas com os integrantes do coro.
Pedagogia, Psicologia
infantil, Didática
Educador: ensino de música; sensibilização para as artes e cultura; educação para cidadania; desenvolvimento da sociabilização e de relações humanas; educação para a formação de valores humanistas e desenvolvimento de habilidades pessoais.
Música, Voz Infantil,
Técnica vocal
Pedagogia,
Psicologia
infantil, Didática,
Artes, Cultura
geral

Fonte: O regente de coro infantil de projetos sociais e as demandas por novas competências e habilidades. UTSUNOMIYA (2011, p.85).

Neste quadro pode-se ver que o regente não somente precisa ter domínio dos fundamentos musicais e técnica de regência, mas a área pedagógica que envolve também conhecimentos de psicologia infantil, assim como a área de gerência que demanda uma postura de liderança e administração.

           3.3 A FORMAÇÃO DO REGENTE DE CANTO CORAL ESCOLAR

É escassa a quantidade de informações sobre a formação de coros infantis e mais ainda o trabalho de regência com crianças no ambiente escolar. Isto se deve ao longo período após 1971, quando a Música, como disciplina autônoma, foi absorvida pela Educação Artística até a retomada do assunto em 2008 com a sansão da Lei Nº 11.769, que estabelece a obrigatoriedade do ensino de música nas escolas de educação básica.

Sobre a formação e competência dos regentes de coro escolar infantil, Gilioli (2008, p.99) diz que em São Paulo, João Gomes Jr., na qualidade de Inspetor Especial de Música, elaborou um relatório em 1928 no qual compilou os conteúdos básicos que se imaginavam necessários que um docente especializado dominasse. “A principal preocupação de formação de professores e de controlar o saber pedagógico musical era explícita”. Segundo Utsunomiya (2011, p.20), os professores de Canto Orfeônico eram legitimados apenas quando concluíam seus cursos preparatórios no SEMA – Superintendência de Educação Musical e Artística.

Ao considerar o trabalho de liderança de um grupo vocal direcionado à faixa etária infantil ou infanto-juvenil, Schimiti (2003, p.3) afirma que a função de regência de coro:

 “requer um direcionamento do estudo, por parte do líder que estará à frente do grupo, para que esta não seja apenas mais uma disciplina dentro do currículo geral básico de formação, mas que seja algo diferenciador nesse processo de estruturação da personalidade, de formação do caráter, do despertar da sensibilidade e do raciocínio, de desenvolvimento do senso humanístico”.

Em termos da formação do regente de coro infantil, como educadora musical, Schimiti (2003, p. 3), enumera alguns requisitos que considera fundamentais:

1.      Consciência de uma prática pedagógica bem fundamentada e de ampla formação musical;

2.      Conhecimento das etapas do desenvolvimento da personalidade infantil e de sua capacidade de abstração, para a adequação e dosagem do conteúdo a ser explorado nos ensaios;

3.      Consciência de que o processo de educação se concretiza com conhecimento e com sensibilidade, envolvendo afetividade, paciência e compreensão;

4.      Consciência da responsabilidade assumida dentro do processo de aquisição de conhecimento por parte da criança, fornecendo estímulos constantes que favoreçam a autoconfiança e também a disciplina;

5.      Consciência da importância de uma flexibilidade no planejamento das atividades musicais e de sua execução de forma lúdica, para haver sempre uma motivação para a aprendizagem;

6.      Consciência da necessidade de uma cultura geral por parte do educador, para com êxito relacionar dados musicais com dados pertencentes às demais ciências ou às demais artes, reconhecendo e sabendo executar obras de diferentes estilos;

7.      Consciência da necessidade de conhecimento de sua própria voz, como instrumento que facilitará o trabalho diante das crianças, como bom exemplo vocal, além do conhecimento das etapas do desenvolvimento das vozes infantis e juvenis para uma perfeita adequação do repertório.

Para Utsunomiya (2011, p.42), em sua pesquisa sobre O regente de coro infantil de projetos sociais, o regente atua como um gestor de relacionamentos já que trabalha com a autoestima, o relacionamento entre as crianças, pais, a comunidade e a ONG, as empresas e a sociedade. Por isso, mais do que um profissional que domine as técnicas musicais e as de canto coral, o regente de coro infantil de projetos sociais tem a função de mediar conflitos.

Como resultado analítico de sua pesquisa Utsunomiya (2011, p.83), elaborou o seguinte quadro que classifica historicamente três modelos de coral infantil de acordo com a orientação e objetivos estabelecidos.

Quadro 3 - Competências requeridas ao regente em função de objetivo e enfoque do coro.

Tipologia
Objetivo
Enfoque
Competências requeridas
Coral regido pelo
mestre-de-capela
Boa performance nas missas
Técnico Artístico
Técnica musical
Canto Orfeônico
Educação para os incultos
Pedagógico
Técnica musical pedagógica
Coral Infantil de Projeto Social
Desenvolvimento pessoal e inserção social
Gestão Social
Técnica Musical Pedagógica Gerencial

Fonte: O regente de coro infantil de projetos sociais e as demandas por novas competências e habilidades. UTSUNOMIYA (2011, p.83).

Para Cruz (1979, p. 19), os seguintes pré-requisitos são necessários para exercer a profissão de regente de coral infantil:

·         Gostar de crianças e do trabalho que vai realizar;

·         Liderança e equilíbrio;

·         Conhecimentos básicos de psicologia infantil e pedagogia;

·         Domínio da linguagem musical;

·         Prática de leitura musical;

·         Conhecimentos dos princípios básicos de harmonia e análise musical;

·         Voz clara e bem colocada;

·         Conhecimento da voz infantil;

·         Bom treinamento auditivo.

“Além disso, o regente deve ter como rotina o estudo e a atualização constantes através de cursos, leituras, concertos e outras atividades complementares à sua formação. Por fim, bom senso, clareza e objetividade no momento de avaliação dos resultados do trabalho”. (UTSUNOMIYA, 2012 apud CRUZ, 1997, p.19).

A mesma autora não concentra todo o trabalho de direção nas mãos do regente, o que facilita em geral o trabalho de cuidado do coro propriamente dito, mas divide-o entre preparador vocal, instrumentista acompanhador, regente assistente e o coordenador. Porém, no ambiente escolar é geralmente o próprio educador musical que acumula todas as funções.

                       

4.    DISCUSSÃO

Poder-se-ia imaginar que as competências para um regente seriam as mesmas para qualquer tipo de coro, seja escolar, de uma empresa, de uma instituição estatal ou eclesiástica, porém, embora haja competências em comum, a demanda é que diferencia o grau e a variedade de competências a serem exigidas para a direção de um grupo vocal.

            A liderança é um dos principais requisitos encontrados, pois é o regente/líder que precisa saber para onde e quando levar o coro no desenvolvimento do trabalho. É ele que organiza o programa e planeja as atividades necessárias. Sua comunicação deve ser clara. Sua tomada de decisões a partir do contexto circunstancial deve ser objetiva e convicta.

Na questão da psicologia dos relacionamentos, a característica do regente deve ser de firme e compreensão ao mesmo tempo, pois está tratando com crianças e adultos, geralmente pais e filhos num contexto escolar de relacionamentos muitas vezes complicado. A paciência e o equilíbrio devem fazer parte de sua atitude com auxiliares, crianças e pais.

Outro aspecto enfatizado durante na revisão foi o conhecimento técnico que envolve a comunicação não verbal da regência com um conteúdo rítmico e expressivo de uma obra musical. Para isto o regente precisa ser um bom músico, com uma boa cultura não somente musical, mas que lhe dê a possibilidade de olhar além do que lhe é próximo. Deve ter também conhecimento da educação vocal além de um treinamento auditivo com capacidade de observar, sentir e corrigir os deslizes de afinação.

            No aspecto pedagógico a frase seguinte pode dar uma clara descrição da função educadora num coral infantil: “nem todo professor de música, enquanto educador, precisa ser um regente de coros, mas todo regente de coros, precisa ser um educador” (D‘ASSUMPÇÃO JÚNIOR, 2010, p. 241).

Uma questão importante no aspecto pedagógico necessário ao educador, é a necessidade de noções de psicologia do desenvolvimento para entender as características psicomotoras, afetivas e sociais das crianças e pré-adolescentes que compões o coral. A frase conhecida que diz que a “criança não é um adulto em miniatura” serve muito bem para o entendimento do trabalho de regência de coro escolar.

A suposição de que se o regente é formado por uma faculdade de música e por isso sabe fazer a “música acontecer” (performance musical), levando-se em conta a necessidade de uma liderança corporativa, conhecimento técnico-pedagógico, psicológico e administrativo e todas as questões inerentes à sua função junto à escola ou empresa, não é verdadeira.

O acadêmico ou formado em música que pretende ser um regente de qualquer tipo de coro, seja de empresa, de escola, ou de igreja, precisa investir em seu preparo nas três áreas de competências, ou seja, técnica, pedagógica e de liderança administrativa. Somente a competência técnica não permite que exerça seu papel de regente educador e líder-administrativo.

As palavras chaves que se destacam no trabalho de regência coral na atualidade são: liderança, solução de problemas e gestão de pessoas. Na verdade essas são competências para um líder que no caso específico de regência de canto coral escolar envolvem capacidade de se relacionar socialmente no desempenho de uma tarefa (regência); conhecimento técnico-musical; conhecimento pedagógico; conhecimento de psicologia infantil.

            Embora Utsunomiya (2011), seja enfática na competência de líder-administrativo em seu trabalho sobre competências para um regente de coro infantil de projetos sociais, para o trabalho no ambiente escolar público não temos a figura da empresa patrocinadora que busca representar bem o seu nome através do coral, assim como no ambiente de escola particular. No entanto, o que deve pautar o necessidade e um trabalho de boa qualidade, deve ser o respeito e o desejo de um verdadeiro educador que é o de “ensinar bem”.

            No entanto, o “ensinar bem” não é uma qualidade isolada no rol de competências necessárias para um regente e coro escolar. Em termos de formação para o trabalho de regência, parece que atualmente a experiência específica tem sido adquirida no dia a dia, através de erros e acertos.

5.    CONCLUSÃO

Na revisão de literatura realizada sobre as competências necessárias para o exercício da função de regente de coro no âmbito escolar, pode-se concluir que embora haja qualidades comuns necessárias para quem rege um coro, independente de faixa etária ou instituição, há competências diferenciadas para o trabalho com coro escolar.

Pelas competências encontradas nos estudos citados, podemos concluir primeiramente que o regente não deve se acomodar ou desenvolver somente conhecimentos técnicos musicais básicos, mas buscar recursos para a sua qualificação mediante as necessidades emergentes no âmbito escolar. Em segundo lugar é necessário que os cursos superiores em música, tenham seus projetos pedagógicos adequados às necessidades do novo momento em que vivemos na educação musical escolar, para que aspectos que envolvem outras áreas do conhecimento possibilitem a diversificação dos olhares sobre a prática coral e o desenvolvimento de competências para o desempenho da profissão.

            Embora não tenha sido encontrado nenhuma publicação exclusiva sobre a formação de corais infantis em escolas, promovidos pelos educadores musicais que trabalhem na escola, há registro de iniciativas de ONGs que trabalham com crianças no nível escolar, coros de empresas e ainda iniciativas como o projeto de Educação através do canto coral, "Um canto em cada canto, desenvolvido desde 2002 em Londrina-PR, que recebe apoio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic).

            O profissional que trabalha com música na escola deve agrupar as qualidades musicais, educadoras e de liderança administrativa. Desta maneira, em termos de competências necessárias ao desenvolvimento de coros escolares, o que mais se aproxima desse contexto são os coros infantis de empresas privadas. Respondendo a pergunta que motivou este trabalho e a partir dos dados encontrado, é possível propor as seguintes competências:

Quadro 4 - Quadro de Competências para um regente de canto coral escolar

REQUER COMPETÊNCIAS NO CAMPO
Técnica musical
Pedagógica/Afetivo
Liderança/Administrativa
Cultural/Social
·  Comunicação não verbal da regência com um conteúdo rítmico e expressivo.
·  Ter conhecimento teórico e prático de técnica vocal, conhecimento de sua própria voz, voz clara e bem colocada;
·  Conhecimento das etapas do desenvolvimento das vozes infantis e juvenis para adequação de repertório.
·  Conhecimentos dos princípios básicos de harmonia e análise musical;
·  Percepção musical (treinamento auditivo, solfejo, etc.).
·  Tocar um instrumento harmônico.
·  Gostar de crianças e do trabalho que irá realizar.
·  Sensibilidade, afetividade, paciência e compreensão;
·  Conhecimento das etapas do desenvolvimento da personalidade infantil e de sua capacidade de abstração, para a adequação e dosagem do conteúdo a ser explorado nos ensaios;
·  Conhecimento do processo pedagógico de ensino: organizar e dirigir situações de aprendizagem, administrar a progressão das aprendizagens.
·  Saber motivar,
·  Saber estimular a criatividade do coral,
·  Saber utilizar novas tecnologias.
·   Visão estratégica de administração e de marketing social*.
·   Saber se comunicar, informar e envolver os pais, escola, coro, sociedade.
·   Saber liderar e agir/ “fazer acontecer” levando em conta o outro.
·   Técnicas de negociação, logística, administração de pessoas, relações públicas.
·   Saber mobilizar recursos materiais, finanças e contabilidade básica.
·   Saber assumir responsabilidades.
·  Necessidade de ampla cultura geral por parte do educador.
·  Ler artigos e livros, se manter atualizado no panorama social, político e econômico.
·  Ouvir corais.
·  Participar de congressos sobre corais;
·  Assistir eventos musicais.
·  Saber relacionar dados musicais com dados pertencentes às demais ciências ou às demais artes, reconhecendo e sabendo executar obras de diferentes estilos.

* Marketing social é a gestão estratégica da transformação e mudança social, guiada por preceitos éticos e de equidade social.

Considerando que a voz é um instrumento de fácil utilização para várias experiências no âmbito musical; pela relação entre as competências preconizadas para outros contextos de coral e finalmente por que o educador musical inserido na escola está diretamente ligado a muitas propostas que necessitam ser realizadas através de atividades musicais em grupo, pode-se sugerir essas competências como alvo continuo do educador musical que é regente de canto coral escolar.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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