O Regente
de Coro Escolar: Competências e Habilidades
Eric Gomes do Carmo
é acadêmico do curso de
licenciatura em música
da Universidade Estadual de
Londrina
1.
IDENTIFICAÇÃO DO PROBLEMA
Dois períodos históricos são
marcantes para o canto coral no Brasil do Período Colonial ao Canto Orfeônico
no final da República Velha (1930) até pouco depois do Estado Novo (1945-50).
No período Colonial havia a figura do mestre-de-capela que era um membro leigo
do corpo administrativo da Igreja. Era o regente dos grupos instrumentais e
vocais, nos quais situava os corais infantis, que nesse período não tinha a
participação feminina.
Segundo Utsunomiya (201,
p.15) apud DUPRAT (1985) e NETO (2008), era
necessário ter certas competências que habilitassem o mestre-de-capela a
assumir e desenvolver as funções. Eram elas:
·
Competência intelectual
e técnica (conhecer a
linguagem musical, liderar e ensinar os grupos instrumentais e vocais para o
serviço religioso, compor, dispor de repertório adquirido ou copiado por ele
mesmo e instrumentista – organista, harpista etc.);
·
Administrativa/gerencial (na participação das Irmandades e
questões relativas ao convívio da e na comunidade)
·
Competência interpessoal (participar do jogo de relações a fim de
conseguir e manter seu sustento financeiro), além de conhecimentos pedagógicos
para alfabetizar e ensinar a contar, sendo também uma forma de compor o seu
sustento.
Do final da República Velha
(1930-1950), o Canto Orfeônico, modalidade de canto a capela surgida com
contornos ideológicos e políticos na França e na Espanha, importada para o
Brasil, onde ganhou o seu auge a serviço do Estado Novo, foi a maneira mais
eficiente do canto coral infantil e a educação musical sob a mentoria de
Villa-Lobos entre outros, se propagar principalmente no Rio de Janeiro, São
Paulo e Minas Gerais. Atualmente os coros infantis fazem parte de programas
desenvolvidos em clubes, escolas, centros culturais, teatros, igrejas,
universidades e escolas de música.
Os cursos superiores em música no Brasil se dividem em
licenciatura e bacharelado. São termos designados para caracterizar modalidades
de curso de graduação onde o profissional de licenciatura é aquele que tem o
objetivo de ensinar, seguir a carreira de educador. Na licenciatura além
de ensinar ao acadêmico as disciplinas referentes ao curso escolhido, a
principal característica dos cursos de licenciatura é ensinar a ensinar, para
tornar o discente um educador.
No bacharelado a formação oferecida ao aluno bacharel é de
conhecimento técnico e pesquisa específica numa área voltada ao mercado de
trabalho, ou seja, um músico que irá atuar numa determinada área, por exemplo
arranjador, compositor, violonista, etc.
Segundo Mateiro (2009, p.65), em seu estudo comparativo e analítico,
sobre os projetos pedagógicos de cursos de música de 15 universidades
brasileiras, em termos de projeto pedagógico e estrutura curricular, a formação
é basicamente a mesma para atender as necessidades da educação musical infantil
e de regentes de corais adultos por exemplo. Basicamente não há diferenciação
na formação de quem vai trabalhar com um grupo instrumental adulto e um coro
infantil.
É complexo compor um único perfil de formação para um
educador musical que irá trabalhar em diferentes contextos. É possível perceber
que, assim como nas mais diversas áreas profissionais, para o educador musical
há competências que, de uma maneira geral, são imprescindíveis a todo
profissional da área de Educação Musical, no entanto há competências
necessárias e fundamentais para o desenvolvimento de atividades docentes
significativas e contextualizadas nas situações de ensino musical existentes na
contemporaneidade, na qual destaca-se a regência de coro escolar.
Na verdade o trabalho do educador musical na escola é mais
abrangente do que a regência de um coro infantil escolar, porém acredita-se que
na formação e desenvolvimento de um coral escolar estão inseridas as principais
necessidades em termos de competência, para um educador exercer sua função no
âmbito escolar.
Tendo em vista a
progressiva inserção da Educação Musical na rede pública de ensino e a
oportunidade de desenvolver o canto coletivo como instrumento de inclusão e
motivação do aluno, procurou-se identificar as competências necessárias para o
desenvolvimento desse trabalho de Educação Musical, formulando-se a seguinte
pergunta: Quais são as competências
necessárias para o desenvolvimento do trabalho de regência coral no âmbito
escolar?
2. METODOLOGIA
Esta revisão foi construída
através do levantamento de dados encontrados na literatura já existente,
através de pesquisa bibliográfica onde foram consultados artigos originais e de
revisão sobre o tema, revistas e Internet.
3. REVISÃO DE LITERATURA
A Resolução do Conselho Nacional de Educação de 18 de
fevereiro de 2002 (BRASIL, 2002),
instituiu as diretrizes curriculares nacionais para a formação de professores
da Educação Básica, em nível superior dos cursos de licenciatura, de graduação
plena. Essas diretrizes constituem-se de um conjunto de princípios, fundamentos
e procedimentos a serem observados na organização institucional e curricular de
cada estabelecimento de ensino e aplicam-se a todas as etapas e modalidades da
educação básica.
Segundo a referida resolução, a formação de professores que
atuarão nas diferentes etapas e modalidades da educação básica, observará
princípios norteadores desse preparo para o exercício profissional específico,
que considerem: a competência como concepção nuclear na orientação do curso, a
coerência entre a formação oferecida e a prática esperada do futuro professor e
a pesquisa, com foco no processo de ensino e de aprendizagem, uma vez que
ensinar requer tanto dispor de conhecimentos e mobilizá-los para a ação, como
compreender o processo de construção do conhecimento.
O Conselho Nacional de Educação usa o termo “simetria
invertida” para especificar que o preparo do professor deve ocorrer em lugar
similar àquele em que vai atuar, a fim de fornecer demanda consistente entre o
que faz como aluno durante a formação e o que se espera de sua prática como
docente.
Desta maneira essa resolução preconiza a aprendizagem como
processo de construção de conhecimentos, habilidades e valores em interação com
a realidade e com os demais indivíduos, no qual são colocados em uso capacidades
pessoais; os conteúdos, como meio e suporte para a constituição das
competências; a avaliação como parte integrante do processo de formação, que
possibilita o diagnóstico de lacunas e a aferição dos resultados alcançados,
consideradas as competências a serem constituídas e a identificação das
mudanças de percurso eventualmente necessárias.
3.1 SOBRE COMPETÊNCIA NA ATUAÇÃO
PROFISSIONAL
Segundo Fleury & Fleury (2001), nos
últimos anos, o tema competência entrou para a pauta das discussões acadêmicas
e empresariais, associado a diferentes instâncias de compreensão: no nível da
pessoa (a competência do indivíduo), das organizações (as core competences)
e dos países (sistemas educacionais e formação de competências).
O dicionário Houaiss (2008), descreve competência num
sentido geral como a capacidade, aptidão e qualificação decorrente de um
conhecimento que alguém tem sobre um assunto. É o domínio dos
conteúdos, conhecimentos e habilidades necessárias para ao desempenho de
atividades que se realiza ou se quer realizar.
O dicionário Webster (1981, p. 63) define competência, na
língua inglesa como: “qualidade ou estado de ser funcionalmente adequado ou ter
suficiente conhecimento, julgamento, habilidades ou força para uma determinada
tarefa”.
McClelland (1990) apud Fleury & Fleury
(2001) publicou o paper Testing for Competence rather than Intelligence onde
diferenciava assim competência de aptidões: talento natural da pessoa, o
qual pode vir a ser aprimorado; de habilidades: demonstração de um
talento particular na prática; e conhecimentos: o que as pessoas
precisam saber para desempenhar uma tarefa. Porém nas definições mais recentes
como já citado, não se diferencia ou separa no conceito a necessidade do
desenvolvimento de aptidão, habilidade e conhecimento, mas a junção dessas
qualidades para a habilitação do sujeito, a fim de desenvolver uma função ou
tarefa.
Segundo Zarifian (1999) apud Fleury & Fleury
(2001), a “competência é a inteligência prática para situações que se apoiam
sobre os conhecimentos adquiridos e os transformam com tanto mais força, quanto
mais aumenta a complexidade das situações”.
Sendo assim um profissional competente é aquele que está
preparado para resolver situações esperadas e inesperadas, compreendendo a si
mesmo e ao outro na situação, mobilizando recursos para atingir os objetivos
propostos em sua organização.
No relatório para a UNESCO da
Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI, coordenada por Jacques
Delors, está publicado em forma de livro no Brasil, com o título Educação, o
livro: Um Tesouro a Descobrir (UNESCO, MEC, Cortez Editora, São Paulo, 1999).
Neste livro, a discussão dos "quatro pilares" ocupa todo o quarto
capítulo, pp. 89-102, que são: Aprender
a conhecer; Aprender a fazer; Aprender a viver com os outros; Aprender a ser.
Esses pilares apresentados apoiam a ênfase para a formação do educador, baseada
numa gama de conhecimentos e experiências a serem vividas no contexto futuro de
atuação profissional, que possibilitem compreender o seu campo de atuação e ensinar
de forma competente.
Em suma, um profissional precisa de aptidão, habilidades e
conhecimentos para agir de forma competente em sua atuação profissional,
aprendendo e reaprendendo continuamente.
3.2 A FORMAÇÃO DO REGENTE
CORAL
No Brasil a formação de um
regente coral pode acontecer de três maneiras, cada uma delas tendo ligação ou
não com a outra. Primeiro: por um aprendizado prático em ambientes musicais, a
exemplo de igrejas que investem nessa formação para a manutenção da música
coral inserida nas próprias instituições. Segundo: através do bacharelado em
regência. Terceiro: através da licenciatura em música para atuar com grupos
vocais de uma maneira geral.
Há uma questão antiga sobre a
formação acadêmica de um bacharel e um licenciado em música, que reside
basicamente sobre o status que de alguma maneira diferencia na prática a
atuação dos dois. Segundo Mateiro (2003, p.1), sobre a formação universitária
do professor de música, há uma dicotomia entre os bacharelados e as
licenciaturas que faz parte do censo comum, onde “alunos mais talentosos são
aqueles cursam o bacharelado enquanto que na licenciatura estão aqueles com
menor interesse acadêmico”. Existe uma ideia subentendida
de que o professor de música optou pela carreira pedagógica por não ter sido um
instrumentista de grande talento, não sendo devidamente competente na área de
música por não reger uma orquestra, se apresentar em recitais, etc. Porém o
mesmo autor destaca que “não podemos esquecer que para o músico o objetivo de
sua tarefa é a música enquanto para o professor é o ensino da música”.
A principal questão é que um
professor deve saber ensinar o que se propõe a ensinar, e para ele ensinar é
necessário saber o que quer ensinar. Vem à tona então a discussão sobre os
conhecimentos fundamentais à formação do professor de música, e especificamente
neste estudo para a atuação como regente de um coro escolar. Obviamente o
domínio dos conhecimentos teóricos e práticos por um professor de música,
inserido numa escola pública ou privada, não se limita a regência, porém é uma
atividade que carece de conhecimentos amplos e específicos para a atuação
pedagógica, necessários em sua formação.
Segundo Fiqueiredo (2006,
p.885), a formação do educador musical em cursos de licenciatura em música tem
incluído diversas subáreas e a regência é uma dessas subáreas que está incluída
no currículo de diversos cursos superiores. Ele afirma que “um dos objetivos da
inclusão de tal subárea na formação do educador musical está diretamente
relacionado ao fato de muitas propostas para a escola serem dinamizadas através
de atividades musicais em grupo, o que exige uma condução de trabalho que traz,
em si, ações de regência”.
Considerando que a voz é um
instrumento de fácil utilização para várias experiências no âmbito musical, é
fundamental que o educador musical se desenvolva nesta área. Embora a área de
regência seja bastante complexa (FIQUEIREDO, 2006; FUCCI AMATO, 2008;
ASSUMPÇÃO, 2010), que envolve desde conhecimentos teóricos, práticos corporais,
comportamentais, culturais e de liderança, o que se objetiva “é o
desenvolvimento de habilidades básicas que poderão ser ampliadas a partir do
interesse pessoal dos indivíduos”. (FIQUEIREDO, 2006, p. 885).
No estudo (FUCCI AMATO, 2008,
p.15) sobre as habilidades e competências na prática da regência coral,
realizado com estudantes de graduação em música que frequentaram as disciplinas
de Regência Coral e Prática Coral na Faculdade de Música Carlos Gomes, a autora
concluiu que as habilidades organizacional-administrativas são valorizadas
pelos coralistas e que esses conceitos deveriam compor a formação dos regentes.
O autor afirma que os
saberes-fazeres se conjugam à boa formação musical em disciplinas teóricas
como: teoria musical, solfejo, harmonia, contraponto, etc.; e disciplinas
práticas: canto, piano, exercícios gestuais e outras matérias que são
necessárias para o ofício de regência a fim de se obterem resultados adequados,
tanto do ponto de vista educacional ou sociocultural quanto sob o ângulo da
qualidade performática.
Desta forma Fucci Amato
(2008, p.19), propõe as seguintes habilidades na formação da competência do
regente coral: Saber se comunicar,
saber agir, saber liderar, saber motivar, ter visão
estratégica, saber assumir
responsabilidade, saber aprender
com os coralistas, saber aperfeiçoar-se,
saber comprometer-se, saber estimular a criatividade do coral,
saber mobilizar recursos materiais.
Os autores Amato Neto &
Fucci Amato (2006, p.1), em seu estudo sobre a organização do trabalho e gestão
de competências, afirmam que, na sua mais abrangente concepção, a formação e a
atuação de regentes corais devem abarcar os princípios musicais, organizacionais
e administrativos. Destaca que o estudo de técnicas de organização do trabalho
e gestão de competências/recursos humanos de um grupo vocal, permite a partir
de sua aplicação, o desenvolvimento de relações interpessoais mais agradáveis
dentro do grupo e, consequentemente, de uma maior eficácia nas atividades do
conjunto.
Quadro 1 - Habilidades organizacional-administrativas do
regente coral.
|
Saber comunicar
|
Compreender,
processar, transmitir informações e conhecimentos, assegurando o entendimento
da mensagem pelos outros.
|
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Saber
motivar
|
Saber o
que e por que faz; saber julgar, escolher, decidir.
|
|
Saber
liderar
|
Estabelecer
metas e levar os coralistas ao seu cumprimento.
|
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Saber agir
|
Saber
atender aos desejos dos coralistas e atender continuamente às expectativas.
|
|
Saber motivar
|
Conhecer
a entender as atividades do coral e seu ambiente, identificando oportunidades
e alternativas.
|
|
Ter visão estratégica
|
Ser
responsável, assumindo os riscos e as consequências de suas ações e ser, por
isso, reconhecido.
|
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Ter visão estratégica
|
Valorizar
e estar aberto às contribuições dos coralistas.
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|
Saber assumir responsabilidades
|
Trabalhar
o conhecimento e a experiência.
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Saber aprender com os coralistas
|
Saber
desenvolver e propiciar o desenvolvimento dos outros.
|
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Saber aperfeiçoar-se
|
Saber
engajar-se e comprometer-se com os objetivos do grupo.
|
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Saber comprometer-se
|
Promover
atividades de criação e improvisação, incentivando a criatividade.
|
|
Saber
estimular a criatividade do coral
|
Saber
mobilizar recursos financeiros e materiais, criando sinergia entre eles;
obter auxílios para patrocínio, divulgação e apoio ao coral.
|
Fonte:
Construindo o Conceito de Competência (adaptado de Fleury &
Fleury, 2000, p. 23).
Em seu livro 10 competências
para ensinar o Dr. Phillip Perrenoud (PERRENOUD, 2000) destaca dez competências
para o ensino que o educador deve desenvolver:
1. Organizar e dirigir
situações de aprendizagem;
2. Administrar a progressão das aprendizagens;
3. Conceber e fazer evoluir
dispositivos de diferenciação;
4. Envolver os alunos em suas aprendizagens e em seu trabalho;
5. Trabalhar em equipe;
6. Participar da administração escolar;
7. Informar e envolver os
pais;
8. Utilizar novas tecnologias;
9. Enfrentar os deveres e os dilemas éticos da profissão;
10. Administrar a própria formação.
Posteriormente o autor inclui
a capacidade do educador refletir sobre sua prática educativa.
Apesar dos currículos de
licenciatura em música em geral não contemplarem disciplinas de liderança e nem
desenvolvimento de criatividade, estar à frente na direção de qualquer grupo
exige atitude e postura de líder para administrar,
empreender e inovar.
Segundo Amato (2008, p. 15),
o canto coral é uma prática musical social realizada em grupo na qual o regente
desenvolve não somente o “preparo técnico musical, mas também a gestão e
condução de um conjunto de pessoas que buscam motivação, educação musical e convivência
em um grupo musical”.
No estudo sobre atuação de
regentes corais, Teixeira (2005, p.62), entrevistou regentes que apontaram
alguns problemas durante sua formação inicial, pontuando as discrepâncias entre
o mundo prático e o mundo acadêmico. “Referiram-se, também, à necessidade de
aprender como interagir com os cantores, para além das questões unicamente
musicológicas abordadas em aula. Foi apontada, ainda, a deficiência da formação
inicial na instrumentalização do aluno para lidar com coros iniciantes”.
Os regentes pontuaram algumas
competências para atuar com coros de empresa:
a) Ter formação musical;
b) Desenvolver competências musicais tais
como saber adaptar o repertório quando necessário, realizar arranjos, ser
criativo e incentivar a criatividade dos cantores na estruturação de arranjos;
c) Ter competência de gestão: “administrar a
vida do coro”, aprendendo a fazer um pedido de execução de tarefas aos
cantores, conseguindo entrar, de certa forma, na rotina dos funcionários, utilizando-se
dos meios disponíveis no seu cotidiano, tais como o pedido de pesquisas pela
Internet; trabalhar com metas específicas com o grupo, à semelhança do trabalho
a que estão habituados na empresa;
d) Tocar um instrumento harmônico;
e) Ser flexível.
Em termos de contexto mais
próximo da realidade escolar onde se pode desenvolver uma trabalho de canto
coral escolar, estão os coros de projetos sociais. Segundo pesquisa realizada
por Utsunomiya (2011, p.98), sobre habilidades e competências para o regente de
coro infantil em projetos sociais, pode-se destacar no quadro a seguir
atribuições devidas ao regente, assim como as competências requeridas para tal:
Quadro
2 - Competências requeridas ao regente de coro infantil de projeto social
|
Atribuições do regente de coro infantil
|
Requer competências no campo
|
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Técnico musical
|
Pedagógica
|
Gerencial
|
|
|
Planejamento estratégico do coro: missão e objetivos do
coro; o lugar do coro na instituição; o que e como fazer para se atingir as
metas estabelecidas para certo período.
|
Visão estratégica
de Administração e de Marketing
|
||
|
Condução de ensaios: Triagem dos
componentes do coro; escolha de repertório; planejamento dos ensaios;
execução dos ensaios; técnica vocal; acompanhamento instrumental.
|
Música, Regência, Instrumento, Técnica
Vocal, Voz infantil,
|
Pedagogia,
Psicologia infantil
|
|
|
Planejamento artístico: Apresentação como
espetáculo: escolha do tema e concepção da apresentação: concepção visual:
enredo, cenário, figurino, performance,
falas, atuação etc.
|
Cenografia, Dramaturgia, Design
|
Pedagogia, Arte,
Cultura
|
|
|
Pré-apresentação: Intermediação e negociação
dos locais para apresentação; preparo da logística: (autorizações,
transporte, alimentação); comunicação do evento (texto, cartaz, release,
programa); documentação do evento (fotos, gravações)
Apresentação: Organização da equipe
de apoio de logística (pais,transporte, alimentação) e de apresentação (luz,
som, gravação, montagem, músicos, preparador vocal). Função de apresentador e
de regente.
Pós-apresentação: desmontagem, guardar
os materiais, acompanhar crianças na volta, fazer contatos sociais.
|
Música, Voz infantil,
Regência, Técnica
Vocal, Instrumento,
Iluminação, Sonoplastia, Oratória
|
Pedagogia,
Psicologia infantil
|
Técnicas de
negociação,
Logística,
Administração
geral, Administração de
pessoas, Relações
Públicas, Design,
Marketing
|
|
Gestão comunicacional do coro: Manter relacionamento
com os diversos públicos: crianças, pais, equipe de apoio do projeto,
voluntários do projeto, comunidade de colaboradores da ONG, direção da ONG,
empresas e pessoas financiadoras,
comunidade ao redor do projeto, poder público, imprensa, sociedade em geral.
|
Marketing social;
Marketing de
relacionamento,
Relações Públicas
|
||
|
Gestão administrativa do coro: controle de verbas.
Fazer cotações, orçamentos, administrar entradas e saídas. Negociar e
administrar patrocínios e apoios.
|
Administração
geral , Finanças,
Contabilidade
|
||
|
Gestão pedagógica do coro: o coro como uma
atividade lúdica e pedagógica. Planejamento e execução de atividades
pedagógicas e lúdicas com os integrantes do coro.
|
Pedagogia, Psicologia
infantil, Didática
|
||
|
Educador: ensino de música;
sensibilização para as artes e cultura; educação para cidadania;
desenvolvimento da sociabilização e de relações humanas; educação para a
formação de valores humanistas e desenvolvimento de habilidades pessoais.
|
Música, Voz Infantil,
Técnica vocal
|
Pedagogia,
Psicologia
infantil, Didática,
Artes, Cultura
geral
|
|
Fonte: O
regente de coro infantil de projetos sociais e as demandas por novas
competências e habilidades. UTSUNOMIYA
(2011, p.85).
Neste quadro pode-se ver que
o regente não somente precisa ter domínio dos fundamentos musicais e técnica de
regência, mas a área pedagógica que envolve também conhecimentos de psicologia
infantil, assim como a área de gerência que demanda uma postura de liderança e
administração.
3.3 A FORMAÇÃO DO REGENTE DE CANTO CORAL ESCOLAR
É escassa a quantidade de
informações sobre a formação de coros infantis e mais ainda o trabalho de
regência com crianças no ambiente escolar. Isto se deve ao longo período após
1971, quando a Música, como disciplina autônoma, foi absorvida pela Educação
Artística até a retomada do assunto em 2008 com a sansão da Lei Nº 11.769, que
estabelece a obrigatoriedade do ensino de música nas escolas de educação
básica.
Sobre a formação e
competência dos regentes de coro escolar infantil, Gilioli (2008, p.99) diz que
em São Paulo, João Gomes Jr., na qualidade de Inspetor Especial de Música,
elaborou um relatório em 1928 no qual compilou os conteúdos básicos que se
imaginavam necessários que um docente especializado dominasse. “A principal
preocupação de formação de professores e de controlar o saber pedagógico
musical era explícita”. Segundo Utsunomiya (2011, p.20), os professores de
Canto Orfeônico eram legitimados apenas quando concluíam seus cursos
preparatórios no SEMA – Superintendência de Educação Musical e Artística.
Ao considerar o trabalho de
liderança de um grupo vocal direcionado à faixa etária infantil ou
infanto-juvenil, Schimiti (2003, p.3) afirma que
a função de regência de
coro:
“requer um
direcionamento do estudo, por parte do líder que estará à frente do grupo, para
que esta não seja apenas mais uma disciplina dentro do currículo geral básico
de formação, mas que seja algo diferenciador nesse processo de estruturação da
personalidade, de formação do caráter, do despertar da sensibilidade e do
raciocínio, de desenvolvimento do senso humanístico”.
Em termos da formação do
regente de coro infantil, como educadora musical, Schimiti (2003, p. 3), enumera
alguns requisitos que considera fundamentais:
1. Consciência de uma prática pedagógica bem
fundamentada e de ampla formação musical;
2. Conhecimento das etapas do
desenvolvimento da personalidade infantil e de sua capacidade de abstração,
para a adequação e dosagem do conteúdo a ser explorado nos ensaios;
3. Consciência de que o processo de educação
se concretiza com conhecimento e com sensibilidade, envolvendo afetividade,
paciência e compreensão;
4. Consciência da responsabilidade assumida
dentro do processo de aquisição de conhecimento por parte da criança,
fornecendo estímulos constantes que favoreçam a autoconfiança e também a
disciplina;
5. Consciência da importância de uma
flexibilidade no planejamento das atividades musicais e de sua execução de
forma lúdica, para haver sempre uma motivação para a aprendizagem;
6. Consciência da necessidade de uma cultura
geral por parte do educador, para com êxito relacionar dados musicais com dados
pertencentes às demais ciências ou às demais artes, reconhecendo e sabendo
executar obras de diferentes estilos;
7. Consciência da necessidade de
conhecimento de sua própria voz, como instrumento que facilitará o trabalho
diante das crianças, como bom exemplo vocal, além do conhecimento das etapas do
desenvolvimento das vozes infantis e juvenis para uma perfeita adequação do
repertório.
Para Utsunomiya (2011, p.42),
em sua pesquisa sobre O regente de
coro infantil de projetos sociais, o regente atua como um gestor de
relacionamentos já que trabalha com a autoestima, o relacionamento entre as
crianças, pais, a comunidade e a ONG, as empresas e a sociedade. Por isso, mais
do que um profissional que domine as técnicas musicais e as de canto coral, o
regente de coro infantil de projetos sociais tem a função de mediar conflitos.
Como resultado analítico de
sua pesquisa Utsunomiya (2011, p.83), elaborou o seguinte quadro que
classifica historicamente três modelos de coral infantil de acordo com a
orientação e objetivos estabelecidos.
Quadro 3 - Competências requeridas ao regente em função de
objetivo e enfoque do coro.
|
Tipologia
|
Objetivo
|
Enfoque
|
Competências requeridas
|
|
Coral regido pelo
mestre-de-capela
|
Boa performance nas missas
|
Técnico Artístico
|
Técnica musical
|
|
Canto Orfeônico
|
Educação para os incultos
|
Pedagógico
|
Técnica musical pedagógica
|
|
Coral Infantil de Projeto Social
|
Desenvolvimento pessoal e inserção
social
|
Gestão Social
|
Técnica Musical Pedagógica Gerencial
|
Fonte: O
regente de coro infantil de projetos sociais e as demandas por novas
competências e habilidades. UTSUNOMIYA
(2011, p.83).
Para Cruz (1979, p. 19), os
seguintes pré-requisitos são necessários para exercer a profissão de regente de
coral infantil:
·
Gostar de crianças e do
trabalho que vai realizar;
·
Liderança e equilíbrio;
·
Conhecimentos básicos de
psicologia infantil e pedagogia;
·
Domínio da linguagem
musical;
·
Prática de leitura musical;
·
Conhecimentos dos princípios
básicos de harmonia e análise musical;
·
Voz clara e bem colocada;
·
Conhecimento da voz
infantil;
·
Bom treinamento auditivo.
“Além disso, o regente deve
ter como rotina o estudo e a atualização constantes através de cursos,
leituras, concertos e outras atividades complementares à sua formação. Por fim,
bom senso, clareza e objetividade no momento de avaliação dos resultados do
trabalho”. (UTSUNOMIYA, 2012 apud CRUZ, 1997, p.19).
A mesma autora não concentra
todo o trabalho de direção nas mãos do regente, o que facilita em geral o
trabalho de cuidado do coro propriamente dito, mas divide-o entre preparador
vocal, instrumentista acompanhador, regente assistente e o coordenador. Porém,
no ambiente escolar é geralmente o próprio educador musical que acumula todas
as funções.
4. DISCUSSÃO
Poder-se-ia imaginar que as
competências para um regente seriam as mesmas para qualquer tipo de coro, seja
escolar, de uma empresa, de uma instituição estatal ou eclesiástica, porém,
embora haja competências em comum, a demanda é que diferencia o grau e a
variedade de competências a serem exigidas para a direção de um grupo vocal.
A liderança é um dos principais requisitos encontrados, pois é o regente/líder
que precisa saber para onde e quando levar o coro no desenvolvimento do
trabalho. É ele que organiza o programa e planeja as atividades necessárias.
Sua comunicação deve ser clara. Sua tomada de decisões a partir do contexto
circunstancial deve ser objetiva e convicta.
Na questão da psicologia dos
relacionamentos, a característica do regente deve ser de firme e compreensão ao
mesmo tempo, pois está tratando com crianças e adultos, geralmente pais e
filhos num contexto escolar de relacionamentos muitas vezes complicado. A
paciência e o equilíbrio devem fazer parte de sua atitude com auxiliares,
crianças e pais.
Outro aspecto enfatizado
durante na revisão foi o conhecimento técnico que envolve a comunicação não
verbal da regência com um conteúdo rítmico e expressivo de uma obra musical.
Para isto o regente precisa ser um bom músico, com uma boa cultura não somente
musical, mas que lhe dê a possibilidade de olhar além do que lhe é próximo.
Deve ter também conhecimento da educação vocal além de um treinamento auditivo
com capacidade de observar, sentir e corrigir os deslizes de afinação.
No aspecto pedagógico a frase seguinte pode dar uma clara descrição da função
educadora num coral infantil: “nem todo professor de música, enquanto educador,
precisa ser um regente de coros, mas todo regente de coros, precisa ser um
educador” (D‘ASSUMPÇÃO JÚNIOR, 2010, p. 241).
Uma questão importante no
aspecto pedagógico necessário ao educador, é a necessidade de noções de
psicologia do desenvolvimento para entender as características psicomotoras,
afetivas e sociais das crianças e pré-adolescentes que compões o coral. A frase
conhecida que diz que a “criança não é um adulto em miniatura” serve muito bem
para o entendimento do trabalho de regência de coro escolar.
A suposição de que se o
regente é formado por uma faculdade de música e por isso sabe fazer a “música
acontecer” (performance musical),
levando-se em conta a necessidade de uma liderança corporativa, conhecimento
técnico-pedagógico, psicológico e administrativo e todas as questões inerentes
à sua função junto à escola ou empresa, não é verdadeira.
O acadêmico ou formado em
música que pretende ser um regente de qualquer tipo de coro, seja de empresa,
de escola, ou de igreja, precisa investir em seu preparo nas três áreas de
competências, ou seja, técnica, pedagógica e de liderança administrativa. Somente
a competência técnica não permite que exerça seu papel de regente educador e
líder-administrativo.
As palavras chaves que se
destacam no trabalho de regência coral na atualidade são: liderança, solução de
problemas e gestão de pessoas. Na verdade essas são competências para um líder
que no caso específico de regência de canto coral escolar envolvem capacidade
de se relacionar socialmente no desempenho de uma tarefa (regência);
conhecimento técnico-musical; conhecimento pedagógico; conhecimento de psicologia
infantil.
Embora Utsunomiya (2011), seja enfática na competência de líder-administrativo
em seu trabalho sobre competências para um regente de coro infantil de projetos
sociais, para o trabalho no ambiente escolar público não temos a figura da
empresa patrocinadora que busca representar bem o seu nome através do coral,
assim como no ambiente de escola particular. No entanto, o que deve pautar o
necessidade e um trabalho de boa qualidade, deve ser o respeito e o desejo de
um verdadeiro educador que é o de “ensinar bem”.
No entanto, o “ensinar bem” não é uma qualidade isolada no rol de
competências necessárias para um regente e coro escolar. Em termos de formação
para o trabalho de regência, parece que atualmente a experiência específica tem
sido adquirida no dia a dia,
através de erros e acertos.
5. CONCLUSÃO
Na revisão de literatura
realizada sobre as competências necessárias para o exercício da função de
regente de coro no âmbito escolar, pode-se concluir que embora haja qualidades
comuns necessárias para quem rege um coro, independente de faixa etária ou instituição,
há competências diferenciadas para o trabalho com coro escolar.
Pelas
competências encontradas nos estudos citados, podemos concluir primeiramente
que o regente não deve se acomodar ou desenvolver somente conhecimentos
técnicos musicais básicos, mas buscar recursos para a sua qualificação mediante
as necessidades emergentes no âmbito escolar. Em segundo lugar é necessário que
os cursos superiores em música, tenham seus projetos pedagógicos adequados às
necessidades do novo momento em que vivemos na educação musical escolar, para
que aspectos que envolvem outras áreas do conhecimento possibilitem a
diversificação dos olhares sobre a prática coral e o desenvolvimento de
competências para o desempenho da profissão.
Embora não tenha sido encontrado nenhuma publicação exclusiva sobre a formação
de corais infantis em escolas, promovidos pelos educadores musicais que
trabalhem na escola, há registro de iniciativas de ONGs que trabalham com
crianças no nível escolar, coros de empresas e ainda iniciativas como o projeto
de Educação através do canto coral, "Um canto em cada canto, desenvolvido
desde 2002 em Londrina-PR, que recebe apoio do Programa Municipal de Incentivo
à Cultura (Promic).
O profissional que trabalha com música na escola deve agrupar as qualidades
musicais, educadoras e de liderança administrativa. Desta maneira, em termos de
competências necessárias ao desenvolvimento de coros escolares, o que mais se
aproxima desse contexto são os coros infantis de empresas privadas. Respondendo
a pergunta que motivou este trabalho e a partir dos dados encontrado, é
possível propor as seguintes competências:
Quadro
4 - Quadro de Competências para um regente de canto coral escolar
|
REQUER COMPETÊNCIAS NO CAMPO
|
|||
|
Técnica musical
|
Pedagógica/Afetivo
|
Liderança/Administrativa
|
Cultural/Social
|
|
· Comunicação não verbal
da regência com um conteúdo rítmico e expressivo.
· Ter conhecimento
teórico e prático de técnica vocal, conhecimento de sua própria voz, voz clara e bem
colocada;
· Conhecimento das etapas
do desenvolvimento das vozes infantis e juvenis para adequação de repertório.
· Conhecimentos dos
princípios básicos de harmonia e análise musical;
· Percepção musical
(treinamento auditivo, solfejo, etc.).
· Tocar um instrumento
harmônico.
|
· Gostar de crianças e do
trabalho que irá realizar.
· Sensibilidade,
afetividade, paciência e compreensão;
· Conhecimento das etapas
do desenvolvimento da personalidade infantil e de sua capacidade de
abstração, para a adequação e dosagem do conteúdo a ser explorado nos
ensaios;
· Conhecimento do
processo pedagógico de ensino: organizar e dirigir situações de aprendizagem,
administrar a progressão das aprendizagens.
· Saber motivar,
· Saber estimular a
criatividade do coral,
· Saber utilizar novas
tecnologias.
|
· Visão estratégica de
administração e de marketing social*.
· Saber se comunicar,
informar e envolver os pais, escola, coro, sociedade.
· Saber liderar e agir/
“fazer acontecer” levando em conta o outro.
· Técnicas de
negociação, logística, administração de pessoas, relações públicas.
· Saber mobilizar
recursos materiais, finanças
e contabilidade básica.
· Saber assumir
responsabilidades.
|
· Necessidade de ampla
cultura geral por parte do educador.
· Ler artigos e livros,
se manter atualizado no panorama social, político e econômico.
· Ouvir corais.
· Participar de
congressos sobre corais;
· Assistir eventos
musicais.
· Saber relacionar dados
musicais com dados pertencentes às demais ciências ou às demais artes,
reconhecendo e sabendo executar obras de diferentes estilos.
|
* Marketing social é a gestão estratégica da
transformação e mudança social, guiada por preceitos éticos e de equidade
social.
Considerando que a voz é um
instrumento de fácil utilização para várias experiências no âmbito musical;
pela relação entre as competências preconizadas para outros contextos de coral
e finalmente por que o educador musical inserido na escola está diretamente
ligado a muitas propostas que necessitam ser realizadas através de atividades
musicais em grupo, pode-se sugerir essas competências como alvo continuo do
educador musical que é regente de canto coral escolar.
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